sexta-feira, novembro 21, 2008

As minhas malas são pequenas - Chegar lá foi assim ...

STP, terra do somos todos primos, terra da kizomba e do calor sufocante, terra da jaca e do carro de praça, terra do “leve-leve” e do “Fica cum Deçuê”.

Tudo se estranha nesta terra africana tão desfasada de África, tudo se estranha nesta terra de missão acima da linha do Equador, tudo se entranha nesta terra de crianças de bata azul com sorrisos desarmantes.

As minhas malas são pequenas... porque quando vim queria trazer um monte de coisas lá dentro...trazer livros, trazer recordações, trazer coisas que me fizessem lembrar de um passado que ainda nem o era, porque nem tinha bem posto o pé no aeroporto. Queria lá enfiar, nessas malas pequenas, um sem fim de sentimentos, de coisas vividas e por viver, queria trazer roupa que não me faltasse, e atafulhar (as malas pequenas) de cadernos com coisas escritas, pensadas e sentidas em momentos tão distantes e diferentes da minha vida...

Cheguei...aqui é “A” casa, aqui tem tudo o que é preciso... para quê? Para viver missão, para preencher este vazio que trazia na alma e que trago guardado cá dentro ao lado da esperança de o preencher.

Vou andando, conhecendo e reconhecendo, buzinando no carro e acenando às pessoas que vão passando no caminho...Dou boleia...”Vem Hermínia... Como está Arícia?”... Aprendo a estar, a gostar de estar, e a pensar que este povo tem o melhor verbo para descrever muito do que nos falam na formação... “De quem vens à procura “piquena”?”, “Vim acompanhar Daniela”... Terra do vir acompanhar, do só ficar, como vem e vai o Bronson, quando sobe ou desce a nossa rua.

Terra das roças, dos lugares ermos, nos fins da estrada, das dependências perdidas e consumidas pelo mato.

A primeira roça... Diogo Vaz ... muito antes do fim da estrada, muito antes do fim das roças... mas talvez mesmo no fim da esperança...

Vem o carro, chega o jipe, as crianças saem das suas ocupações diárias... apanhar manga, apanhar côco, apanhar chicote, apanhar roupa para ir lavar ao rio... e vêm a correr... “Brrrranca, brrranca, doce!!! Doce!!!” E os mais velhos ficam nas soleiras das portas... apetece perguntar porque esperam... Mas não esperam, também não desesperam... os dias passam e estão sentados nas soleiras das portas a trançar cabelos e a ver... a ver os dias passar, a ver brancos que chegam e que saem, que dão doce, ou dão umas palavras muitas vezes incompreensíveis para eles e que falam de um Deus (de que eles ouviram vagamente falar e ao qual se convertem temporariamente pelo sim pelo não).

Apaixono-me, por sorrisos, por palavras trocadas em “diolecto”, por alegrias a bailar nos olhos com a nossa chegada, por roças, por pessoas, por lugares, pelo “leve-leve”, pelo estar, pelo calor...

Ainda a tanto tempo de partir ou pensar nisso, quero levar a Vanessa, e a Ir. Marisa, quero levar a Ana e a sua filhota, quero levar o Bronson, a nhá Eduarda e a nhá Antónia, a Larindja, a Sisa, a Mimina, a Gilá... As minhas malas são pequenas.

1 comentário:

Corvo disse...

As malas foram pequenas para trazer tudo o que querias, mas acredita que quando foram, o que foi com as malas, deixou um vazio bem grande