Em todas as almas há coisas secretas cujo segredo é guardado até à morte delas. E são guardadas, mesmo nos momentos mais sinceros, quando nos abismos nos expomos, todos doloridos, num lance de angústia, em face dos amigos mais queridos - porque as palavras que as poderiam traduzir seriam ridículas, mesquinhas, incompreensíveis ao mais perspicaz. Estas coisas são materialmente impossíveis de serem ditas. A própria Natureza as encerrou - não permitindo que a garganta humana pudesse arranjar sons para as exprimir - apenas sons para as caricaturar. E como essas ideias-entranha são as coisas que mais estimamos, falta-nos sempre a coragem de as caricaturar. Daqui os «isolados» que todos nós, os homens, somos. Duas almas que se compreendam inteiramente, que se conheçam, que saibam mutuamente tudo quanto nelas vive - não existem. Nem poderiam existir. No dia em que se compreendessem totalmente - ó ideal dos amorosos! - eu tenho a certeza que se fundiriam numa só. E os corpos morreriam.
Mário de Sá-Carneiro, in 'Cartas a Fernando Pessoa'
3 comentários:
sim, sim.. eu sei q ñ é possível.. mas não me roubes o sonho.. e a vontade de continuar a tentar chegar lá, onde as almas se fundem e os corpos morrem!**
Não acho que seja impossível... Muito pelo contrário... Mário de Sá Carneiro, é demasiado trágico, que achoq ue é de onde lhe vem a beleza, do aspecto trágico romântico ... mas achei que é provavelmente umas das definições mais bonitas de amor que já li ...
beijos
Love u
este Carneiro não devia ter amigos... ou uma porta de um quarto, aberta, mesmo em frente ao seu abismo...
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